Do Arabesq.

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Os grifos, em negrito, são nossos.

“Tenho participado de um grupo de intelectuais estudiosos da questão árabe e palestina. Inconformados com a cobertura deturpada da grande mídia, uma parte desses brasileiros e arabistas resolveram publicar um manifesto, que faço publicar esta semana como sendo minha coluna semanal. A ideia é que este manifesto possa receber adesões que podem ser enviadas para o e-mail lejeunemgxc@uol.com.br. Abaixo, a íntegra do Manifesto.

Porque apoiamos a diplomacia do Governo do presidente Lula

Desde o último dia 14 de março, o presidente da República Federativa do Brasil empreende importante e estratégica viagem – tão esperada – tanto para Israel como para a Palestina.  Importantes e significativos setores da grande mídia brasileira e mesmo de alguns intelectuais insistem em descaracterizar a viagem, que ocorre em momento particular da vida política do Oriente Médio.

Nós, brasileiros e estudiosos do mundo árabe, vimos a público nos manifestar em total apoio à política diplomática do presidente Luis Inácio Lula da Silva, em sua senda pela soberania nacional, pela soberania de todos os povos e nações da terra e que os governos e seus respectivos povos tenham liberdade de decidir com soberania, os seus próprios destinos, sem ingerência externa de nenhuma natureza.

Manifestamos total e irrestrita solidariedade ao povo palestino, que sofre bloqueio econômico, moral e político de Israel desde maio de 1948, submetendo milhões de seres humanos a uma das maiores tragédias que a humanidade pode presenciar nos últimos 60 anos.

Senão vejamos:

1. Lula foi criticado por não ter visitado o túmulo de Theodor Herzl.  E o fez corretamente. Essa pessoa é responsável por um dos maiores mitos que Israel vive no mundo, qual seja, a de que “a humanidade deveria dar uma terra sem povo a um povo sem terra”, a uma alusão aos judeus e os palestinos, que, milenarmente vivem naquela região. Entendemos que o roteiro de um presidente visitante deve ser estabelecido em comum acordo com as duas chancelarias e não de forma unilateral e imposta ao governante visitante como Israel tentou fazer;

2. Avigdor Liebermann boicota a visita. Essa outra polêmica figura da política israelense, que ocupa o cargo de chanceler (ministro das Relações Exteriores de Israel), decidiu boicotar a visita do presidente Lula ao país e ao parlamento (Knesset). Mais uma vez, essa controversa figura, homem de extrema direita, promove uma das maiores gafes da diplomacia internacional. Nunca em tempo algum, um chanceler de um país que recebe um mandatário de outro estado deixou de comparecer a um cerimonial. Mas, o que pouca gente na verdade soube é que Liebermann, querendo um encontro particular e privado com Lula, teve negado seu pedido. O que fez muito bem o nosso presidente;

3. Coro da mídia brasileira com Israel. Ficamos estarrecidos e impressionados com o comportamento colonizado da mídia brasileira na cobertura da visita do primeiro chefe de estado do Brasil à Palestina desde 1886 (há 134 anos).  Ecoando em língua pátria o que leem nos jornalões escritos em inglês, em especial New York Times e Financial Times, os editoriais de Estadão, Folha e O Globo reverberam a crítica ao presidente Lula por este não ter mencionado sequer a palavra “Irã” em todos os seus pronunciamentos feitos em Israel, em especial o do parlamento israelense. E, mais uma vez, acerta o nosso presidente. A pauta não pode ser imposta ao governante visitante pelos que o recebem, mas deve ser feita de comum acordo;

4. Programa nuclear iraniano. A onda do momento, o frenesi da mídia colonizada é arrancar de qualquer forma, do presidente Lula, uma declaração de condenação ao programa nucelar iraniano. Acerta o presidente Lula ao não fazer isso. Em primeiro lugar, pelo simples fato de que nossa diplomacia respeita a soberania e a autonomia dos povos e governos para decidirem o que é melhor para seus povos. Em segundo e mais importante, dar essa declaração sonhada pelos neoliberais brasileiros e subservientes ao império americano seria dar um tiro em nosso próprio pé. Até porque desenvolvemos o mesmo programa nuclear que o Irã desenvolve, de enriquecimento de urânio para fins pacíficos, para fins medicinais, energéticos e científicos.  Nada mais. Até porque, o Brasil e o Irã, somos signatários do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares;

5. Falsas expectativas sobre a visita. Mais uma vez, a mídia inventa falsas expectativas sobre a visita do presidente Lula à Israel e à Palestina.  Chegaram a dizer que Lula “pretendia ser o grande mediador da paz no Oriente Médio” (sic). Nunca foi esse, nem de longe, um dos objetivos da vista presidencial ao OM. Ao criar e inventar essas falsidades, a mídia prepara terreno para carimbar a missão do presidente como “fracassada”, muito ao contrário dos objetivos estabelecidos pela nossa chancelaria. De forma clara, altiva e soberana, o presidente Lula foi à Israel e à Palestina enfatizar e reiterar o seu apoio total ao processo de paz, interrompido por Israel. Foi para dizer que o Brasil apoia a imediata criação do Estado Palestino com fronteiras de 1967.  Foi levar sua solidariedade para com os palestinos. Foi dizer o que até o maior amigo de Israel, que são os Estados Unidos, vêm dizendo: os assentamentos judaicos devem ser imediatamente congelados na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.  E, claro, como bom caixeiro viajante, foi abrir novos mercados para produtos brasileiros, ampliando a nossa pauta de exportações. Nesse sentido, Lula cumpriu tudo que foi estabelecido. E a viagem pode ser considerada amplamente vitoriosa;

6. Tensões de Israel com os EUA. A visita do presidente Lula coincide com um momento delicado e muito particular do Oriente Médio. Com a perspectiva de certo fracasso da política traçada por Barak Obama para a região, através de seu negociador George Mitchell e sem força política quase nenhuma para controlar Israel, o governo do primeiro Ministro Netanyahu se sente no direito de anunciar, no dia da chegada do presidente Lula ao país e do retorno do vice-presidente americano, Joe Biden, a construção de 1.600 novas moradias na parte árabe de Jerusalém. Segundo vários analistas internacionais, mesmo os EUA seguindo como parceiro estratégico e zeloso da segurança de Israel, nunca as relações estiveram tão tensas como agora. Fala-se que pelo menos desde 1975, quando presidia os Estados Unidos Gerald Ford e era secretário de Estado Henry Kissinger.

Nós, brasileiros, arabistas e apoiadores da causa árabe e palestina não poderíamos nos calar neste momento, de uma avalanche midiática que se coloca como uma mídia colonizada, a serviço do império do Norte. Apoiamos a diplomacia soberana de nosso país, do governo do presidente Lula e de seu chanceler Celso Amorim, que orgulham a pátria e o povo brasileiros.

E deixamos aqui de forma irrestrita a nossa solidariedade ao povo palestino, em particular:

• Todo apoio à criação do Estado Palestino com fronteiras mínimas de antes da Guerra dos Seis dias de 1967, com Jerusalém como sua capital;
• Todo apoio à volta das negociações de paz entre palestinos e israelenses;
• Direito ao retorno dos milhões de palestinos refugiados;
• Libertação dos mais de dez mil prisioneiros políticos palestinos das masmorras israelenses;
• Fim ao bloqueio da Faixa de Gaza;
• Fim imediato da construção do Muro da Vergonha que divide a Cisjordânia;
• Fim imediato da construção do Muro que separa Gaza do Egito;
• Devolução aos palestinos de todos os seus monumentos e locais sagrados de sua história;
• Pela unidade do povo palestino.

São Paulo, 17 de março de 2010.

Lejeune Mirhan, sociólogo; Samuel Sérgio Salinas, procurador de justiça aposentado e sociólogo; Claude Fahd Hajjar, psicanalista; Tamman Daaboul, editor e Mauro Korban, profissional do direito.”

Até aqui, o artigo do site http://www.arabesq.com.br.

Nós, brasileiros, vemos a comunidade árabe com muito carinho e simpatia – como, igualmente, acolhemos e amparamos todas as nações que aqui buscaram a sombra de nossas árvores, e o sorriso acolhedor dos brasileiros.  É uma gente lutadora e com muita garra, sofredora como nós, e que igualmente aspira a um mundo que respeite suas tradições, seu povo, sua religião e sua soberania.

Vale dizer que é consenso geral, a idéia de que o Brasil é, de fato, na atualidade, o país mais habilitado e admirado como interlocutor mundial.  Nosso país é um caldeirão mestiço multirracial, que abriga todos os povos, e onde todos, sem distinção, convivem em paz.  Aqui, inclusive, a também admirada comunidade israelense convive em paz com a comunidade árabe.  Os brasileiros são negros, brancos, índios, japoneses, árabes, indianos, chineses, alemães, italianos, portugueses, americanos, cubanos, franceses… a lista é infindável! Em que país isso poderia ser possível?

Esses aspectos, quando somados, sugerem a existência de um incontestável poder brasileiro: o de servir como exemplo à convivência pacífica de todos os povos e, dessa forma, disseminar de forma efetiva a paz mundial.  Isso posto, cabem algumas perguntas:

  • Será que nosso país vinha propositalmente sendo mantido de lado, porque os imperialistas estadunidenses enxergavam esse risco real?
  • Serão esses, de fato, um dos interesses americanos – os patrões de nossa mídia colonizada, e dos neoliberais de sempre?
  • Até quando essa parcela da elite – igualmente colonizada – continuará a apoiar a hegemonia estadunidense, em benefício das riquezas que podem auferir e em detrimento de nosso povo?
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