O palpite togado de um golpe improvável

O que significam as palavras da vice-procuradora da República, Sandra Cureau, afirmando que, devido à quantidade de irregularidades, “a candidatura Dilma Rousseff caminha para ter problema já no registro e, se eleita, já na diplomação”?

Gilson Caroni Filho(*), na Carta Maior – via Vi o Mundo.

A temperatura da disputa política, agitada com os recentes programas partidários, traz ao primeiro plano uma movimentação que, dependendo dos desdobramentos, pode ser ridícula ou inquietante: a nova direita, tal como a antiga, parece o homem que, acordado, age como se dormisse, transformando em atos os fragmentos de um longo e agitado sonho no qual ele ainda é o principal ator, com poderes para interromper qualquer possibilidade de avanço institucional.

O sonho-delírio do bloco neoudenista insiste em não aceitar a disputa democrática, reitera a disposição em deixar irresolvidos conflitos fundamentais, antecipando o fracasso de qualquer debate político. Seu ordenamento legal não se propõe a garantir o mesmo direito a todos, ampliando o Judiciário e racionalizando as leis. Deseja uma democracia que só existe no papel, com instituições meramente ornamentais que dão um tom barroco às estruturas de mando.

Inconformada com a derrota que se anuncia em pesquisas de intenção de voto, a classe dominante se esmera em repetir ações que um dia lograram êxito. Tornam-se cada vez mais frequentes as ações combinadas de articulistas de direita e membros do Judiciário. Acreditando que a história permite repetições grotescas, multiplicam-se editoriais, artigos, entrevistas com vice-procuradoras e ministros do TSE que acreditam estar criando condições superestruturais para um golpe contra a candidatura de Dilma Rousseff. Se ainda podemos encontrar pouquíssimos comentários políticos de diferentes matizes, é inegável a homogeneidade discursiva dos “especialistas” em jornalismo panfletário. E eles se repetem à exaustão.

No entanto, o erro de cálculo pode ser surpreendente. Confundir desejo com realidade tem um preço alto quando se pensa em estratégia política. Ao contrário de 1964, não faltam às forças do bloco democrático-popular, o único capaz de impedir de retrocessos, organização e direção. Os movimentos sociais, e esse não é um pequeno detalhe, não mais se organizam a partir do Estado, como meros copartícipes de governos fracos e ambíguos. Estruturados no vigor das bases, acumulando massa crítica desde o regime militar, os segmentos organizados contam, hoje, com experiências suficientemente amadurecidas para deslegitimar ações e intenções golpistas junto a expressivos setores da opinião pública.

Rompendo as alternativas colocadas pelas elites patrimonialistas que apoiam José Serra, as forças progressistas dispõem de plataforma política para não permitir que a democracia brasileira venha a submergir no pseudolegalismo que se afigura em redações e tribunais.

Nesse sentido, o que significam as palavras da vice-procuradora da República, Sandra Cureau, afirmando que, devido à quantidade de irregularidades, “a candidatura Dilma Rousseff caminha para ter problema já no registro e, se eleita, já na diplomação”? Nada mais que identidade doutrinário-ideológica com o que há de mais reacionário no espectro político brasileiro. Inexiste no palpite da doutora Sandra um pensamento jurídico que se comprometa com os anseios democráticos da sociedade brasileira.

Nem que fosse por mera hipótese exploratória, seria interessante que o Judiciário se pronunciasse sobre o conteúdo da informação televisiva, em especial a que é produzida pela TV Globo. Quando uma emissora monopolística, operando por meio de concessão pública, editorializa seu noticiário e direciona a cobertura para favorecer o candidato do PSDB, o que podemos vislumbrar? Desrespeito a uma obrigação constitucional? Abuso de poder político e econômico? Ou um exemplar exercício de “liberdade de imprensa”?

São questões candentes quando, antes de qualquer coisa, o custo da judicialização da vida pública partidariza algumas magistraturas. Sem se deixar intimidar com as pressões togadas, a democracia só avança através de pactos que permitam abrir a sociedade às reivindicações e participação social de setores recém-incluídos. A candidatura de Dilma Rousseff expressa essa possibilidade. Do lado oposto, sob pareceres e editoriais que se confundem tanto no estilo quanto no conteúdo, reside a quimera de um golpismo cada vez menos provável.

(*) Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

Até aqui, o texto de Gilson Caroni.

Na verdade, o tal “golpe branco” Não é tão fácil assim. Eles sabem disso. Além da memória de 64, ainda viva no imaginário coletivo, os obstáculos são os seguintes:

a) A Força popular. Basta uma voz convocando o povo às ruas, e o povo irá!! Temos diversos exemplos de mobilizações de massa recentes, por motivos muito menos críticos: passeatas e mobilizações pelos Royalties do petróleo, o entusiasmo do povo pela vitória da candidatura brasileira nas olimpíadas e na copa do mundo, só pra citar alguns.  O povo não vai aceitar. Há que se convencer, ainda por cima, dezenas de governadores fiéis ao Governo Lula, que fariam uma grita gigantesca convocando as massas. Estão desafiando o mesmo povo que elegeu e reelegeu Lula, e hoje se congratula pela medida acertada.  Eles hoje têm acesso a computadores, carro, TVs LCDs, e estão inflacionando o mercado imobiliario, em busca da casa própria. Esqueçam: o povo não deixa, mesmo!!!

b) A força empresarial. Centenas de milhares de empresas foram e são beneficiadas com a expansão do crédito pelos bancos públicos. Estes empresários não querem correr o risco de um retrocesso que, por exemplo, terminasse por engessar o Banco do Brasil, o BNDES, a CEF, em prol de um movimento privatista ou, mesmo, para dar mais espaço e poder de fogo a outras instituições financeiras. O BB, por exemplo, foi o banco que arrastou a concorrência atrás de si, rumo à derrocada das taxas de juros (que ainda são altas para os padrões internacionais, eu sei) e ao aumento do volume de crédito concedido. Estamos falando principalmente das micro, média e pequenas empresas, justamente as que são responsáveis pela grande massa de empregos gerados com a eficaz política governamental de Lula. Não tenham dúvida: patrões influenciarão fortemente seus empregados a vestirem a camisa contra essa boçalidade institucional, e sob risco do retorno da sanha privatista.

c) A visibilidade do Brasil no exterior, e a massa de nações que viriam em defesa de Lula. Ainda mais agora, que o jogo está delineado; que o Brasil ousou afrontar – corretamente – os EUA, demonstrando que na verdade “o Pit Bull é Lassie”, seriam colossais as suspeitas de influência da máquina imperialista estadunidense sobre o processo democrático brasileiro.  Os demais países que compõem o BRIC, o Irã, a Turquia, inúmeros países africanos, quem sabe os árabes, Chávez, Evo, Fidel… enfim, Lula fez amigos no mundo todo – virão em seu (nosso!) socorro.  E quem vai dizer que não interessaria, além do mais, ao bloco socialista – leia-se, China e Rússia – assegurar-se que os ianques não recuperem a influência sobre o Brasil, através de um eventual governo serrista, acintosamente submisso?

d) A internet. Independente do plano nacional de banda larga, cresce geometricamente a quantidade de pessoas com acesso a internet no Brasil, mesmo discada.  São novos tempos: a informação circula cada vez mais livremente, as vendas de jornais e revistas caem de forma colossal, e a desconfiança do eleitorado em relação ao PIG é unânime, geral e irrestrita. O povo não acredita mais no Jornal Nacional, na Veja, na Exame, no Estadão, na Folhinha… As denúncias da mídia contra Lula são tão comuns, que passamos os olhos direto sobre elas, dando-lhe a verdadeira importância: a de porta voz de uma elite egoísta em que so ela saía ganhando.

É impossível não lembrar que o “golpe branco” teve seu laboratório em Honduras – patrocinado pelos neocons americanos.  Mas aqui não é Honduras.

Aqui é o Brasil.

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